3 (três)

Tríades, trinômios, trindades
três, trinca, terno
tripés, tribo.
3.

Deve ser um número que me persegue ou que me ensina,
a saber o que significa ser o que se é
todos os dias.
Tríquetra.

Desses que caminham do lado e de peito aberto pro mundo,
seja pra mudar de apartamento,
ou ser levado pelo vento.
Sabe-se lá do tempo…
A gente não liga.

Desses que entendem
todos seus jeitos,
trejeitos,
defeitos e
despeitos.
Amores e
cores,
com flores
ou até mesmo nas
dores.

Desses que te fazem praticar a divisão,
que entendem o teu ‘mood’,
também acreditam no cosmos,
no acaso,
no fracasso,
no recomeço,
até do avesso,
e às vezes,
até mesmo sem precisar dizer
com palavras
porque
bastam olhares.

Enquanto com eles,
mal sei explicar o que é isso,
tudo isso.
A gente vive todos os dias,
sem saber
o que será
amanhã.

Abrimos o peito e encaramos a vida,
com ilícitos ou alcoolicos,
alternativos ou cafuçus,
no carnaval ou em Vegas,
na alegria e na tristeza,
na saúde e na doença,
todos os dias dessa vida,
até que a morte nos separe.

Eu amo vocês, companheiras.
Eu amo vocês, companheiros.

triquetra

dani, fefo e chico

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Champagne supernova in the sky

Me lembro que certa vez, quando estava sentindo esse mesmo buraco no peito, eu tinha pouco mais de 18 anos. Certa ocasião, curiosamente, eu ouvia Oasis nos fones de ouvido e caminhava pela Paulista, no começo da noite, a caminho de um encontro com alguns amigos. Estava tocando Champagne Supernova, uma das minhas preferidas. Notei que exatamente à mesma altura que eu caminhava, havia um rapaz, com seus vinte e poucos anos, tocando violão e cantando aos berros, sem camisa, no meio fio. Eu, que estava na na calçada, desacelerei o passo, baixei o volume do mp3 e, qual era a música que o cara berrava? Champagne Supernova. Eu tinha tomado um tiro de canhão no peito e, naquele momento, fui acertada por outro. Acho que ele também. Chorei, mas com um sorriso no rosto, porque foi exatamente naquela hora que entendi como tudo é efêmero. Vou me lembrar dessa cena até o fim da minha vida.

“But you and I, we live and die
The world’s still spinning around
We don’t know why”

 

Trovoa

Minha cabeça trovoa
sob meu peito te trovo
e me ajoelho
destino canções pros teus olhos vermelhos
flores vermelhas, vênus, bônus
tudo o que me for possível
ou menos
(mais ou menos)
me entrego, ofereço
reverencio a tua beleza
física também
mas não só
não só

graças a Deus você existe
acho que eu teria um troço
se você dissesse que não tem negócio
te ergo com as mãos
sorrio mal
mal sorrio
meus olhos fechados te acossam
fora de órbita
descabelada
diva?
súbita?
súbita…

seja meiga, seja objetiva
seja faca na manteiga
pressinto como você chega
ligeiro
vasculhando a minha tralha
bagunçando a minha cabeça
metralhando na quinquilharia
que carrego comigo
(clipes, grampos, cremes, tônicos):
toda a dureza incrível do meu coração
feita em pedaços…

minha cabeça trovoa
sob teu peito eu encontro
a calmaria e o silêncio
no portão da tua casa no bairro
famílias assistem tevê
(eu não)
às 8, 9 da noite
eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você
eu sei
quer dizer
eu acho que sei…
eu acho que sei…

vou sossegada e assobio
e é porque eu confio
em teu carinho
mesmo que ele venha num tapa
e caminho a pé pelas ruas da Lapa
(logo cedo, vapor… não acredito!!?)
a fuligem me ofusca
a friagem me cutuca
nascer do sol visto da Vila Ipojuca
o aço fino da navalha que faz a barba
o aço frio do metrô
o halo fino da tua presença

sozinha na padoca em Santa Cecília
no meio da tarde
soluça, quer dizer, relembro…
batucando com as unhas coloridas
na borda de um copo de cerveja
resmunga quando vê
que ganha chicletes de troco

lembrando que um dia falou
“sabe, você tá tão chique
meio freak, anos 70
fique
fica comigo
se você for embora eu vou virar mendigo
eu não sirvo pra nada
não vou ser teu amigo
fique
fica comigo…”

minha cabeça trovoa
sob teu manto me entrego
ao desafio de te dar um beijo
e entender o teu desejo
me atirar pros teus peitos
meu amor é imenso
maior do que penso
é denso
espessa nuvem de incenso de perfume intenso
e o simples ato de cheirar-te
me cheira a arte
me leva a Marte
a qualquer parte
a parte que ativa a química
química…

ignora a mímica
e a educação física
só se abastece de mágica
explode uma garrafa térmica
por sobre as mesas de fórmica
de um salão de cerâmica
onde soem os cânticos
convicção monogâmica
deslocamento atômico
para um instante único
em que o poema mais lírico
se mostre a coisa mais lógica

e se abraçar com força descomunal
até que os braços queiram arrebentar
toda a defesa que hoje possa existir
e por acaso queira nos afastar
esse momento tão pequeno e gentil
e a beleza que ele pode abrigar
querida nunca mais se deixe esquecer
onde nasce e mora todo o amor

(Juçara Marçal / Kiko Dinucchi – Metá Metá)

Será

E o que será de nós,
meu amor,
quando a raiva passar,
quando o passado não pesar e
você se apaixonar?

O que será de nós,
quando amanhã for só mais um dia ou
quando o amanhecer anunciar a hora de partir,
mesmo que a vontade de ficar nos consumir?

E o que será de nós,
vida minha,
quando o barco que navegamos
resolver naufragar?

De quem será a culpa?
Do mar de nós,
dos nossos nós,
dos nossos mares
das nossas marés?

As palavras saem de mim assim, suaves,
porque somos assim, tão leves.

O que será de nós,
meu amor?

Ode ao gato

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

(José Jorge Letria)

Vertigem

Uma hora tá assim,
tá assado ou
uma hora não tá.
Não mais.

De repente começa,
de repente termina e
de repente, o que houve?

Ora encaixa,
ora desencaixa,
essa engrenagem louca que é a vida.

Vida,
amores,
escolhas,
hipóteses,
é tanto
tudo
que no meio de tudo isso
a gente
some.

Sub.traímos
nós
de nós mesmos.

Pra quê
mesmo?

Engrenagem,
mecanismo.

E eu
no meio disso tudo?

Meio passarinho,
cantando na gaiola.
Olhando tudo,
sem poder
voar.

Não quero me encolher nesse espaço
pequeno.

Quero voar
quero fugir
dessa engrenagem
enjaulada
de ser sempre o que se é
e não puder
mudar.

Porque a vida
é feito
dança.
Passarinho,
asa,
voa.
Sabe?

Na verdade,
nem eu.
Do amanhã
eu não sei.

O quereres

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão.
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher.
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão.
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói.

Eu queria querer-te amar o amor,
Construir-nos dulcíssima prisão.
Encontrar a mais justa adequação,
Tudo métrica e rima e nunca dor.
Mas a vida é real e é de viés,
E vê só que cilada o amor me armou!
Eu te quero (e não queres) como sou,
Não te quero (e não queres) como és.

Ah! Bruta flor do querer…

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo-te aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim

(partes de “O quereres”, de Caetano Veloso – Album Velô -1984)

Para o meu sol.

Tudo era breu.
O céu escureceu
e desabou uma tempestade.
Águas que me inundaram.
Naufraguei.
Perdi minhas armas
e escudos.

Eu morri.
Juntei cacos de mim espalhados pelo chão.
Sobrevivi,
mas eramos só o céu e eu.

Daí que a vida me chamou pra dançar:
Encontrei um arco íris.

Mudei o caminho de casa
dancei na chuva,
sorri para ganhar sorrisos e, então,
um sol apareceu pra mim.

Sol da manhã, meio acanhado.
Tímido.
Com aquele sorriso sincero,
Escondendo suas mãos
na mesa do bar.

Era tão você.
Pude ser tão eu.

Perdi o rumo,
as palavras,
a rima.

Avassalador.

Meu dia ensolarado não é perfeição,
é identidade.
E esse sol faz parte do meu universo.

Me vesti de sorrisos,
Ganhei uma rosa branca.
Floresci.

E cada dia da minha primavera tem você, meu sol.
Me ilumina, me esquenta – se encaixa, assim, tão junto.
Tão igual, tão bom
Tão leve, tão nosso.

Gosto de viver esses dias ensolarados,
apaixonados,
sinceros,
cansados
e nossos.
Do jeito que a gente quiser.
Quero um jardim inteiro com você!