26/02/13 – 20h56

Se perder só por perder.
Sentir só por sentir.
Achar, em meio a tudo,
nada.
Achar, em meio ao nada,
si só.
Só e se.
Talvez.

Cuspindo verbos
Tateando o desconhecido
Sorrindo sorriso gratuito
mas que espera
o sorriso de troco.

Esperando ser mais
do que foi
e menos do que achava que seria
sendo, in natura,
a mistura de tudo aquilo
que vi
e vivi.

Nem sei mais se sei fazer poesia.

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Champagne supernova in the sky

Me lembro que certa vez, quando estava sentindo esse mesmo buraco no peito, eu tinha pouco mais de 18 anos. Certa ocasião, curiosamente, eu ouvia Oasis nos fones de ouvido e caminhava pela Paulista, no começo da noite, a caminho de um encontro com alguns amigos. Estava tocando Champagne Supernova, uma das minhas preferidas. Notei que exatamente à mesma altura que eu caminhava, havia um rapaz, com seus vinte e poucos anos, tocando violão e cantando aos berros, sem camisa, no meio fio. Eu, que estava na na calçada, desacelerei o passo, baixei o volume do mp3 e, qual era a música que o cara berrava? Champagne Supernova. Eu tinha tomado um tiro de canhão no peito e, naquele momento, fui acertada por outro. Acho que ele também. Chorei, mas com um sorriso no rosto, porque foi exatamente naquela hora que entendi como tudo é efêmero. Vou me lembrar dessa cena até o fim da minha vida.

“But you and I, we live and die
The world’s still spinning around
We don’t know why”

 

Trovoa

Minha cabeça trovoa
sob meu peito te trovo
e me ajoelho
destino canções pros teus olhos vermelhos
flores vermelhas, vênus, bônus
tudo o que me for possível
ou menos
(mais ou menos)
me entrego, ofereço
reverencio a tua beleza
física também
mas não só
não só

graças a Deus você existe
acho que eu teria um troço
se você dissesse que não tem negócio
te ergo com as mãos
sorrio mal
mal sorrio
meus olhos fechados te acossam
fora de órbita
descabelada
diva?
súbita?
súbita…

seja meiga, seja objetiva
seja faca na manteiga
pressinto como você chega
ligeiro
vasculhando a minha tralha
bagunçando a minha cabeça
metralhando na quinquilharia
que carrego comigo
(clipes, grampos, cremes, tônicos):
toda a dureza incrível do meu coração
feita em pedaços…

minha cabeça trovoa
sob teu peito eu encontro
a calmaria e o silêncio
no portão da tua casa no bairro
famílias assistem tevê
(eu não)
às 8, 9 da noite
eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você
eu sei
quer dizer
eu acho que sei…
eu acho que sei…

vou sossegada e assobio
e é porque eu confio
em teu carinho
mesmo que ele venha num tapa
e caminho a pé pelas ruas da Lapa
(logo cedo, vapor… não acredito!!?)
a fuligem me ofusca
a friagem me cutuca
nascer do sol visto da Vila Ipojuca
o aço fino da navalha que faz a barba
o aço frio do metrô
o halo fino da tua presença

sozinha na padoca em Santa Cecília
no meio da tarde
soluça, quer dizer, relembro…
batucando com as unhas coloridas
na borda de um copo de cerveja
resmunga quando vê
que ganha chicletes de troco

lembrando que um dia falou
“sabe, você tá tão chique
meio freak, anos 70
fique
fica comigo
se você for embora eu vou virar mendigo
eu não sirvo pra nada
não vou ser teu amigo
fique
fica comigo…”

minha cabeça trovoa
sob teu manto me entrego
ao desafio de te dar um beijo
e entender o teu desejo
me atirar pros teus peitos
meu amor é imenso
maior do que penso
é denso
espessa nuvem de incenso de perfume intenso
e o simples ato de cheirar-te
me cheira a arte
me leva a Marte
a qualquer parte
a parte que ativa a química
química…

ignora a mímica
e a educação física
só se abastece de mágica
explode uma garrafa térmica
por sobre as mesas de fórmica
de um salão de cerâmica
onde soem os cânticos
convicção monogâmica
deslocamento atômico
para um instante único
em que o poema mais lírico
se mostre a coisa mais lógica

e se abraçar com força descomunal
até que os braços queiram arrebentar
toda a defesa que hoje possa existir
e por acaso queira nos afastar
esse momento tão pequeno e gentil
e a beleza que ele pode abrigar
querida nunca mais se deixe esquecer
onde nasce e mora todo o amor

(Juçara Marçal / Kiko Dinucchi – Metá Metá)

O quereres

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão.
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher.
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão.
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói.

Eu queria querer-te amar o amor,
Construir-nos dulcíssima prisão.
Encontrar a mais justa adequação,
Tudo métrica e rima e nunca dor.
Mas a vida é real e é de viés,
E vê só que cilada o amor me armou!
Eu te quero (e não queres) como sou,
Não te quero (e não queres) como és.

Ah! Bruta flor do querer…

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo-te aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim

(partes de “O quereres”, de Caetano Veloso – Album Velô -1984)

Tão longe de tudo

Solidão, amiga do peito,
me dê tudo que eu tenha por direito.
Me diga, me ensina.

Ao dormir não sinto medo. Há um sol, existe vida!
Me trate com jeito, eu tenho saída.

Eu quero calor e o mundo é frio.
Minha vaidade não enxerga o paraíso.
Eu preciso de alguém pra fugir, sem avisar ninguém.

Não vou olhar pra trás,
A saudade está morta.
E já não me importa,
Está longe demais.
Longe demais de tudo!

Eu estou longe demais.
Longe demais de tudo!

Tão perto de mim,
Tão longe de tudo!

Recado

Se me der um beijo, eu gosto.
Se me der um tapa, eu brigo.
Se me der um grito, não calo!
Se mandar calar, mais eu falo!

Mas se me der a mão, claro, aperto.
Se for franco, direto e aberto,
Tô contigo, amigo, e não abro!
Vamos ver o diabo de perto!

Mas preste bem atenção, seu moço:
Não engulo a fruta e o caroço.
Minha vida é tutano… É osso.
Liberdade virou prisão.

Se é amor, deu e recebeu.
Se é suor, só o meu e o teu.
Verbo “eu” pra mim já morreu,
Quem mandava em mim nem nasceu.

É viver e aprender.
Vá viver e entender, malandro, vai compreender.
Vá tratar de viver!

E se tentar me tolher,
É igual ao fulano de tal que taí.
Se é pra ir, vamos juntos.
Se não é, já não tô nem aqui.

(Gonzaguinha)

Bandeira

Eu não quero ver você cuspindo ódio.
Eu não quero ver você fumando ópio, pra sarar a dor.
Eu não quero ver você chorar veneno.
Não quero beber o teu café pequeno.
Eu não quero isso, seja lá o que isso for.
Eu não quero aquele,
Eu não quero aquilo.
Peixe na boca do crocodilo,
Braço da Vênus de Milo acenando tchau.

Não quero medir a altura do tombo,
Nem passar agosto esperando setembro.
Se bem me lembro,
O melhor futuro: este hoje escuro.
O maior desejo da boca é o beijo.
Eu não quero ter o Tejo escorrendo das mãos.
Quero a Guanabara, quero o Rio Nilo
Quero tudo ter: estrela, flor, estilo,
Tua língua em meu mamilo, água e sal.

Nada tenho, vez em quando tudo.
Tudo quero, mais ou menos, quanto.
Vida vida, noves fora, zero.
Quero viver, quero ouvir, quero ver!
(Zeca Baleiro)

Meninos e meninas

(…)
Tenho quase certeza que eu não sou daqui.
Acho que gosto de São Paulo, gosto de São João, gosto de São Francisco e São Sebastião.
E eu gosto de meninos e meninas.
Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre. Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente.
Estou cansado de bater e ninguém abrir.
Você me deixou sentindo tanto frio.
Não sei mais o que dizer.

Te fiz comida, velei teu sono, fui teu amigo, te levei comigo. E me diz: pra mim o que é que ficou?

Me deixa ver como viver é bom!
Não é a vida como está, e sim as coisas como são!
Você não quis tentar me ajudar, então a culpa é de quem?

Eu canto em português errado,
Acho que o imperfeito não participa do passado.
Troco as pessoas,
Troco os pronomes.

Preciso de oxigênio, preciso ter amigos, preciso ter dinheiro, preciso de carinho.
Acho que te amava, agora acho que te odeio… São tudo pequenas coisas e tudo deve passar.

Acho que gosto de São Paulo, gosto de São João, gosto de São Francisco e São Sebastião.
E eu gosto de meninos e meninas.

(Renato Russo, faço das tuas as minhas palavras)

Yellow LedBetter

I see. I don’t know why there’s something else.
I wanna drum it all away.
I said: “I don’t, I don’t know whether I was: the boxer or the bag.”
(…)
And I know I don’t wanna stay at all.

Tradução

Eu vejo. Eu não sei porquê havia algo mais.
Quero me livrar de tudo isso.
Eu disse: “Eu não sei se sou o pugilista ou o saco de pancadas.”
(…)
E eu sei que não quero mais ficar… mesmo.

Diz tudo.

Aumentei o som, berrei feito Eddie Vedder e me sinto bem melhor agora.

A tal da viagem em família

Não é só uma viagem qualquer. É irmos todos à Tupã!

É aquela viagem que reune pedacinhos de você que estão espalhados por aí. Pessoas que compartilharam as melhores fases de sua vida: você nasceu e cresceu com todos eles. Familia. Mas quando digo familia, não digo, assim, pai, mãe e irmãos. Não. Eu me refiro à tias, tios e primos. im, numa mesma casa grande, moramos (ou nos reuniamos) todos, sempre,  e que quase todo dia tinha cara de festa. Tão especiais.

Vamos todos nos reunir outra vez, para mais um dia com cara de festa. Aliás, vou dizer: em festa a minha familia é boa! Boa? Não. Minha família é incrível. Familia grande, sabe como é. O Sr. Rafael/Rosendo Carrion Poyatos e Sra. Maria Fernandes não tinham TV. São tipo 12 filhos, mas que no final contamos 9. 9 filhos(as) trouxeram, que trouxeram mais 9 maridos/esposas (todos eles casaram) e que, depois, tiveram filhos. Alguns até mais de um! Então, minha gente, pense numa familia GRANDE! É. É a minha. E por isso que as festas são incríveis. Incríveis e extremamente simples: bebe-se cerveja, as mulheres conversam sobre como estão suas vidas, os homens (e as netas mais abusadas rs) jogam Truco (e inclusive gritam TRUCO!, em certos momentos), comemos muito bem (e muitas vezes), sempre com uma musiquinha boa de fundo ou as vezes só o silêncio. As vezes a trilha sonora são as piadas! Ou a lembrança de histórias do passado, que geralmente são tão engraçadas.

E em todas essas situações, somos nós, todos juntos de novo e vivemos mais um dia de ser feliz, e com cara de festa, só por estar junto.

Fartura à mesa, como boa tradição espanhola e para gosto de nosso avô, que agora só nos vigia de longe, de uma estrelinha, ou lá de Granada.

Muitas pessoas queridas. Muitas! De amor genuíno e maternal. Dividimos, todos, as mesmas origens.

E daí que além de tudo isso, é aniversário de 90 anos de Tia Dada (que para os outros é Tia Luzia, mas pra mim é Dada).  A minha eterna vózinha postiça linda linda, tão carinhosa e tão vó. Tia da minha mãe. Irmã da minha vó. Oras, ela é a minha vó! Minha Dada. Minha velhinha. Esse pode ser o nosso ultimo encontro e eu vou te guardar assim, dentro de mim: minha vózinha.

Vocês, vocês são:

as minhas marcas, meus valores e minhas armas de colorir. São como preces presas ao corpo, provando do gosto que eu já vivi.” (Marcas – 5 a Seco)

Amo muito todos vocês.