Foram duas lágrimas.
A primeira despencou rapidamente, como um suicida magrinho e sem talento.
A segunda ficou um tempo ninada pelas bordas até que caiu já quase seca nem passando da metade do rosto.
O sofrimento foi tão ralo que sequer alcançou o nariz.
Fiquei com preguiça de alguma saudade surpresa crescer escondida e me apunhalar em brechas de fraqueza e carinho, mas ela nunca apareceu e agora, se chegasse, seria só uma fantasia bordada de última hora pelo tédio.

03/02/13 – 23:12

Estado vegetativo
Degenerativo
Digestivo
pensativo
ruminativo

Talvez encontre
um bom motivo
que explique
a vida
ou que dê
algum sentido

Ser tão
Ser toda
Ser tudo
mesmo sendo
sempre
quase

Um tanto
Um tento
Um trago
Eu tento

E vago
Mesmo engasgando
sempre testando
tentando
tinindo
sorrindo
chorando
e enlouquecendo.

O que explica
a vida
é a loucura
de todos
os dias.

03/02/2013 – 04:58

Depois de tudo
antes de dormir
algo recorda
mas pouco me lembra.

Não era o ‘mais eu’
nem o ‘menos você’
talvez a não existência
dos nós.
Desses nós.
Dos nós de nós.

Somos feito nós
e se a ponta achar a foz
os dois ficam sem voz
embaraçados feitos nós.

Desatei
E não me aperto
nem enjaulo.

Liberto.

(A little bit drunk)

Champagne supernova in the sky

Me lembro que certa vez, quando estava sentindo esse mesmo buraco no peito, eu tinha pouco mais de 18 anos. Certa ocasião, curiosamente, eu ouvia Oasis nos fones de ouvido e caminhava pela Paulista, no começo da noite, a caminho de um encontro com alguns amigos. Estava tocando Champagne Supernova, uma das minhas preferidas. Notei que exatamente à mesma altura que eu caminhava, havia um rapaz, com seus vinte e poucos anos, tocando violão e cantando aos berros, sem camisa, no meio fio. Eu, que estava na na calçada, desacelerei o passo, baixei o volume do mp3 e, qual era a música que o cara berrava? Champagne Supernova. Eu tinha tomado um tiro de canhão no peito e, naquele momento, fui acertada por outro. Acho que ele também. Chorei, mas com um sorriso no rosto, porque foi exatamente naquela hora que entendi como tudo é efêmero. Vou me lembrar dessa cena até o fim da minha vida.

“But you and I, we live and die
The world’s still spinning around
We don’t know why”

 

Carta aberta ao mito (que acabou de morrer)

Queria lhe dizer que aprendi com Osho que, muitas vezes, insistimos em certas situações justamente porque não deram certo. São os chamados fardos psicológicos. Tudo aquilo o que era bom e poderia ter sido ainda mais, mas acabou ou foi interrompido por nós mesmos e/ou nossas escolhas, de certa forma. A sensação ilusória do “se”, que pega todo mundo pelo braço. Mas, oras, se não foi, não era pra ser. E não há o que questionar, não há o que responder. A resposta é o agora.
É o meu caso, digo, você é isso, neste caso. Apego ao que não foi, mas poderia ter sido. Amargor.
Não vou depositar todas as minhas energias a esse resgate ao que ficou no passado, porque já não caibo mais no mesmo espaço, porque depois de tanto ter visto, aprendido, descoberto, redescoberto, mudado, eu vivi. Somos mudança todos os dias. Metamorfoses ambulantes, como dizia Raul.

Ouvi tantos “não” e, exageradamente, me foram apontados erros, o que eu não tenho, o que eu não sou, o que eu poderia mudar, o que deveria ser melhorado. Pare de fumar, fique mais loira, fique mais magra, fale isso, não diga isso, não se importe, não espere, finja que nada aconteceu… Mas, espere, essa é só a sua opinião. Você se tornou um juiz, avaliando diariamente e detalhadamente o que não te pertence, o que não está dentro de você.
Me pergunto todos os dias se você viveu.
Me pergunto se você de fato colocou em prática a liberdade que prega. Os desatinos, as loucuras, os excessos, o aprendizado, o novo, o diferente… Tem certeza que você fez tudo para ter embasamento para julgar? A vida te deu, de fato, esse diploma de Bacharel em juizado da vida? Porque, pra te falar a verdade, eu não ouso fazer isso. Acho que você também não deveria.

Vivem dentro de mim muitas pessoas, escolhas, vozes, respostas, perguntas e lições a serem aprendidas. Não me arrisco a dizer que meu ser é evoluído ou que certas coisas me pertencem, pois pairamos sob o mesmo teto estelar, vivemos sobre o mesmo solo, respiramos o mesmo ar. Nada nos pertence. Fazemos parte do mesmo todo. Compartilhamos a vida, todos juntos, hoje e agora.
Já não nos pertence viver do passado, arrastar correntes ou carregar fardos.
Estou livre porque me encontro em silêncio absoluto. Fecho meus olhos, respiro, ouço as minhas vozes e mato meu sistema mental escravizador. Não sou um robô. Vivo de sentidos, sentimentos, de pensamentos, mas não de respostas.
A resposta que você procura, sobre o que houve, não sou eu quem te dará.

Hoje, agora, estou indo embora deixando apenas um fio condutor. Não te deixo as chaves de casa, nem os CDs compartilhados e nem as nossas camisetas iguais. O que é meu, é meu. O que é seu, é seu – incluindo fardos, memórias, ressentimentos e bons sentimentos.

Estou livre para viver o que a vida trouxer.
A liberdade vive em mim.

Aes dhammo sanantano  (Essa é a lei suprema da existência) – Buddha

 

(Trila sonora: Ukelele Songs – Eddie Vedder – Album de 2011)

16/01/2013 – 00:42

É dentro do peito
que a palavra
ferve
e se atira
pelas mãos
trêmulas,
pela caneta
falha
e desaba
feito água
pelos meus
olhos.

É dentro de mim
que as palavras
moram
os verbos
se conjugam
se multiplicam
viram pretérito
criam vida
e voam
pela boca.

É nos meus ouvidos
que as palavras
gritam
feito bala
de calibre
38.
Me anoitecem
com esse som
agudo
do seu não,
que me parece mais
um sim.
Me transforma em
surdo,
mudo,
surto,
parto,
viro,
e volto…
Sempre volto.

 

Dos caminhos maiores

E se for pra viver,
que eu viva tudo
o que puder
e não puder.

Se for pra ser real,
que a intensa realidade
corte meu rosto
como vento
persistente
e severo.

Se for pra sonhar,
que seja o sonho mais
louco
impossível
daqueles que só aparecem
na minha cabeça
quando não estou nela.

Se for pra aprender a voar,
que seja dado às asas,
bem abertas,
o céu,
o ar,
e um horizonte que grite
“venha!”
e
sem fechar os olhos
ir.

O melhor e o pior
O sim ou o não
Nem talvez
Nem sei lá
Que seja tudo como
Deus quiser
o universo fizer
o vento soprar
o coração disser
a sorte pousar.

Será

E o que será de nós,
meu amor,
quando a raiva passar,
quando o passado não pesar e
você se apaixonar?

O que será de nós,
quando amanhã for só mais um dia ou
quando o amanhecer anunciar a hora de partir,
mesmo que a vontade de ficar nos consumir?

E o que será de nós,
vida minha,
quando o barco que navegamos
resolver naufragar?

De quem será a culpa?
Do mar de nós,
dos nossos nós,
dos nossos mares
das nossas marés?

As palavras saem de mim assim, suaves,
porque somos assim, tão leves.

O que será de nós,
meu amor?

Vertigem

Uma hora tá assim,
tá assado ou
uma hora não tá.
Não mais.

De repente começa,
de repente termina e
de repente, o que houve?

Ora encaixa,
ora desencaixa,
essa engrenagem louca que é a vida.

Vida,
amores,
escolhas,
hipóteses,
é tanto
tudo
que no meio de tudo isso
a gente
some.

Sub.traímos
nós
de nós mesmos.

Pra quê
mesmo?

Engrenagem,
mecanismo.

E eu
no meio disso tudo?

Meio passarinho,
cantando na gaiola.
Olhando tudo,
sem poder
voar.

Não quero me encolher nesse espaço
pequeno.

Quero voar
quero fugir
dessa engrenagem
enjaulada
de ser sempre o que se é
e não puder
mudar.

Porque a vida
é feito
dança.
Passarinho,
asa,
voa.
Sabe?

Na verdade,
nem eu.
Do amanhã
eu não sei.

Para o meu sol.

Tudo era breu.
O céu escureceu
e desabou uma tempestade.
Águas que me inundaram.
Naufraguei.
Perdi minhas armas
e escudos.

Eu morri.
Juntei cacos de mim espalhados pelo chão.
Sobrevivi,
mas eramos só o céu e eu.

Daí que a vida me chamou pra dançar:
Encontrei um arco íris.

Mudei o caminho de casa
dancei na chuva,
sorri para ganhar sorrisos e, então,
um sol apareceu pra mim.

Sol da manhã, meio acanhado.
Tímido.
Com aquele sorriso sincero,
Escondendo suas mãos
na mesa do bar.

Era tão você.
Pude ser tão eu.

Perdi o rumo,
as palavras,
a rima.

Avassalador.

Meu dia ensolarado não é perfeição,
é identidade.
E esse sol faz parte do meu universo.

Me vesti de sorrisos,
Ganhei uma rosa branca.
Floresci.

E cada dia da minha primavera tem você, meu sol.
Me ilumina, me esquenta – se encaixa, assim, tão junto.
Tão igual, tão bom
Tão leve, tão nosso.

Gosto de viver esses dias ensolarados,
apaixonados,
sinceros,
cansados
e nossos.
Do jeito que a gente quiser.
Quero um jardim inteiro com você!