Carta aberta ao mito (que acabou de morrer)

Queria lhe dizer que aprendi com Osho que, muitas vezes, insistimos em certas situações justamente porque não deram certo. São os chamados fardos psicológicos. Tudo aquilo o que era bom e poderia ter sido ainda mais, mas acabou ou foi interrompido por nós mesmos e/ou nossas escolhas, de certa forma. A sensação ilusória do “se”, que pega todo mundo pelo braço. Mas, oras, se não foi, não era pra ser. E não há o que questionar, não há o que responder. A resposta é o agora.
É o meu caso, digo, você é isso, neste caso. Apego ao que não foi, mas poderia ter sido. Amargor.
Não vou depositar todas as minhas energias a esse resgate ao que ficou no passado, porque já não caibo mais no mesmo espaço, porque depois de tanto ter visto, aprendido, descoberto, redescoberto, mudado, eu vivi. Somos mudança todos os dias. Metamorfoses ambulantes, como dizia Raul.

Ouvi tantos “não” e, exageradamente, me foram apontados erros, o que eu não tenho, o que eu não sou, o que eu poderia mudar, o que deveria ser melhorado. Pare de fumar, fique mais loira, fique mais magra, fale isso, não diga isso, não se importe, não espere, finja que nada aconteceu… Mas, espere, essa é só a sua opinião. Você se tornou um juiz, avaliando diariamente e detalhadamente o que não te pertence, o que não está dentro de você.
Me pergunto todos os dias se você viveu.
Me pergunto se você de fato colocou em prática a liberdade que prega. Os desatinos, as loucuras, os excessos, o aprendizado, o novo, o diferente… Tem certeza que você fez tudo para ter embasamento para julgar? A vida te deu, de fato, esse diploma de Bacharel em juizado da vida? Porque, pra te falar a verdade, eu não ouso fazer isso. Acho que você também não deveria.

Vivem dentro de mim muitas pessoas, escolhas, vozes, respostas, perguntas e lições a serem aprendidas. Não me arrisco a dizer que meu ser é evoluído ou que certas coisas me pertencem, pois pairamos sob o mesmo teto estelar, vivemos sobre o mesmo solo, respiramos o mesmo ar. Nada nos pertence. Fazemos parte do mesmo todo. Compartilhamos a vida, todos juntos, hoje e agora.
Já não nos pertence viver do passado, arrastar correntes ou carregar fardos.
Estou livre porque me encontro em silêncio absoluto. Fecho meus olhos, respiro, ouço as minhas vozes e mato meu sistema mental escravizador. Não sou um robô. Vivo de sentidos, sentimentos, de pensamentos, mas não de respostas.
A resposta que você procura, sobre o que houve, não sou eu quem te dará.

Hoje, agora, estou indo embora deixando apenas um fio condutor. Não te deixo as chaves de casa, nem os CDs compartilhados e nem as nossas camisetas iguais. O que é meu, é meu. O que é seu, é seu – incluindo fardos, memórias, ressentimentos e bons sentimentos.

Estou livre para viver o que a vida trouxer.
A liberdade vive em mim.

Aes dhammo sanantano  (Essa é a lei suprema da existência) – Buddha

 

(Trila sonora: Ukelele Songs – Eddie Vedder – Album de 2011)

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