O quereres

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão.
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher.
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão.
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói.

Eu queria querer-te amar o amor,
Construir-nos dulcíssima prisão.
Encontrar a mais justa adequação,
Tudo métrica e rima e nunca dor.
Mas a vida é real e é de viés,
E vê só que cilada o amor me armou!
Eu te quero (e não queres) como sou,
Não te quero (e não queres) como és.

Ah! Bruta flor do querer…

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo-te aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim

(partes de “O quereres”, de Caetano Veloso – Album Velô -1984)

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