Tempos modernos

Você, alguma vez em sua vida, já se imaginou daqui a 20 anos?

Não digo pensar de maneira imaginativa, do gênero que diz que você estará morando em Paris e desfrutando um delicioso anchoiade com pão fino, em algum restaurante nas adjacências do Place des Vosges. Não. Refiro-me à pensar realisticamente, com os pés bem fincados no chão.

Bem, de maneira realista, eu pensei.

Daqui a 20 anos eu não serei mais eu.

O meu corpo já não será esse, estará cheio de limitações, de cansaço e conduzidos por uma contagem de mais dias de morte do que dias de vida.

A juventude não existirá em mim. Não terei mais todas as possibilidades do mundo ao meu alcance e já nem estarei mais no mundo que era meu, porque farei comparações cotidianas de todos os pormenores de hoje e de ontem, de tecnologia à relações sociais.

A pele, já inibida pelos anos, começará a entristecer. E, como toda tristeza, terá início pelos olhos. Olhos, que antes eram tão atentos ao futuro, agora só olharão o passado, por isso inundarão e enrugarão.

Nessa mesma pele, haverão borrões. Como quadros de Rembrandt, meio derretidas, aquelas artes que eram são minhas, tatuadas em minha pele, se tornarão apenas vestígios do que fui – da poesia ao amor.

Do restante, não pensei.

Não pensei se terei uma grande família ou alguns gatos companheiros. Não pensei se terei um teto ou um prato de comida. Mas pensei que terei de me contatar com o que tiver, porque o que me restará será apenas o arrependimento por não ter sido.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s