O assassinato das minhas palavras

Eu encontrei uma explicação plausível para o meu auto-enclausuramento. Não foi através dos pensamentos de Foucault, que já o previa em nossa era, muito menos pela tal “crise existencial adolescente”, porque já não tenho mais idade para isso. Penso que minha instrospecção é a digestão de tantos pensamentos mal resolvidos.

Já ouvi dizer que escritores têm sentimentos mais aguçados, mais doloridos e depois de muito brigarem com eles mesmos, inevitavelmente conseguem colocá-los para fora, para que o mundo veja, de maneira muito mais intensa, de modo a tocar o instinto de quem lê.

Trata-se disso: minha hipersensibilidade lírico-literária precisa, de fato, ultrapassar os limites dos meus pensamentos. Preciso vomitar palavras, gritos, sentimentos viscerais e toda essa intensidade.

Disseram-me: “Oras, não seja jornalista! Não há mercado para isso! É muito difícil!”. Quero responder que, o que me move, não é a ânsia de vencer financeiramente; o que me move são as palavras, os sentimentos colocado em cada letra e a visceralidade dos meus pensamentos.

Prefiro frustrar-me financeiramente à viver enjaulada dentro de mim mesma. Enlouqueceria, certamente.

Como diziam Os Mutantes, em Panis et Circenses: “As pessoas da sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”. E eu, não… Não nasci por nascer e não vou morrer seguindo a boiada de nosso admirável mundo novo.

Enquanto isso, vejo a minha poesia morrendo dentro de mim mesma. E, essa, é a perda mais dolorosa das quais eu poderia ter.

Enquanto enlouqueço, o mundo segue: a bolsa de valores se desestabiliza, as pessoas chegam atrasadas, usam salto alto, ternos, gravatas e se sorriem quando têm vontade de chorar ou maldizer.

Então, o auto enclausuramento funciona bem nesses casos. Não vivo uma farsa para mim mesma. Me vivo, me leio, me permito pensar por mim mesma, sem vestir camisas de ninguém. São as minhas palavras, os meus arrepios, minhas crases, sílabas e exclamações.

Dessas interrogações todas, só quero as minhas.

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Um pensamento sobre “O assassinato das minhas palavras

  1. Belo texto!

    Compartilho de algumas dessas agonias… Como traduzir pensamentos e sentimentos em um mundo tão imageticamente definido – reduzido?

    Só te digo algo que aprendi: não deixe a poesia morrer dentro de ti.

    Pois a poesia é imortal…

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