Meu avô Rafael

“Saudade é um sentimento que quando não cabe no coração, escorre pelos olhos.”

Meu avô, imigrante, chegou ao Brasil em meados de 1930, pelos vapores que vinham da Europa e atracavam em Santos. Para sair de Granada, na Espanha, ele pegou a identificação do seu irmão já falecido e, se tornou Rafael Carrion Poyatos, ao invés de Rosendo Carrion Poyatos, seu verdadeiro nome. Veio junto com seu irmão, Manolo, que ao chegar ao Brasil, se suicidou atirando-se em frente de uma locomotiva – mas isso é outra história.

Meu avô Rafael escolheu o interior de São Paulo para fazer a sua vida. Em Tupã, mais precisamente, chegou bem jovem e aos 20 anos se casou com Maria, neta de Austríacos, tiveram onze filhos e destes somente nove sobreviveram. Tio Zé, Tio Paulo, Tio Tony, Tia Mília, a Chita, a Dia, a Rosa, minha mãe Maria e o Jair.
Lá ele trabalhou na roça e vivia numa pobreza digna. Minhas tias e minha mãe contam com alegria como faziam bonecas de espiga de milho e chinelos de pneus velhos. Naquele tempo a precariedade da vida não era tão evidente, não havia ganância e ambição passando na TV. Aliás, TV? Não existia! Era a vida de se viver assim, colhendo algodão, amendoim, fazendo meninices e cultivando o amor pela família.

Veio para São Paulo, construiu uma casa que chamávamos de casa grande. Aliás, tudo era nomeado pela minha família, desde cômodos da casa a apelidos esquisitos para as minhas tias. Tinha o quarto verde, o quartão, o quartinho, a área externa era chamada de azulzinho, minha tia Mercedes chamávamos de Chita, minha tia Luzia chamávamos Dia, minha tia Emília era apenas Mília. Na casa grande havia um vitralgrandioso que só abríamos em dias de festa, que ficava entre o quintal (onde fazíamos as aleluias de balas) e o quarto verde, onde muitas comemorações fizemos e muitas lágrimas deixamos. Muitas peculiaridades nessa família Carrion.

Não conheci minha avó Maria. Ela virou anjo antes que eu nascesse, mas vejo em minha mãe o rosto de minha avó, ambas com nome Maria e muito parecidas. Olhos azuis de lembrar o céu e o mar, juntos, como uma coisa só, como um infinito só. Muito amorosa minha avó Maria, imagino, assim como minha mãe, que parece ter o coração de mil mães nela só. Era assim com meu avô e minhas tias e tios – muito amor.

Com tantos tios e tias, é claro que a família cresceria muito. Todos os tios e tias tiveram filhos. Eu tinha muitos primos e primas. Eu era uma das mais novas, mas lembro-me de tudo com muita clareza. E nós, da segunda geração, herdamos esse costume de nomear esquisitamente as coisas, como nossos pais. Inventávamos brincadeiras que só nós fazíamos, como cidadinha, por exemplo.

As ceias de natal só podiam ser devoradas após a meia-noite, depois da prece, com meu avô sentado à ponta da mesa e os filhos, netos e amigos ao seu redor. E ai de quem beliscasse os quitutes antes deste cerimonial! Me lembro do meu avô em todas as festas de natal, quando belisco algum quitute antes da meia-noite, sempre penso que ele certamente me daria uma bronca! Embora, quando criança, lembro-me de ter beliscado algumas vezes as uvas que estavam ali pertinho de mim, e ele me sorriu carinhosamente, como quem participava da travessura. Nosso querido o avô Rafael.

Éramos uma família festeira, cheia de comemorações e motivos para reuniões. Mesmo velhinho, meu avô sempre esteve lá. Certo tempo ele se mudou da casa grande porque, muito galanteador, se casou pela segunda vez com a Dona Teresa. Muito querida, essa Dona Teresa. Todos os anos, contávamos os dias para a “Aleluia de balas”, quando as crianças tinham sacolinhas nas mãos e ela, cheia de balas e bombons, nos reunia no quintal, jogava os doces para cima e gritava “aleluia!”, e corríamos voltando nossas sacolinhas em direção ao céu, pescando guloseimas que caiam das nuvens. Meu avô e a Teresa agora moravam juntos, numa casa próxima à casa grande. Agora, eu morava na casa grande com meus pais, com meus irmãos Rogério, Ricardo e Rodrigo, com as tias Dia e Rosa e meus primos Leandro, Fernanda, Flávia, Simone e Fábio. Era uma casa muito, muito feliz.
Nas festas ficávamos aguardando o vô no portão e, quando ele dobrava a esquina, corríamos para ver quem o abraçava primeiro. Ele retribuía o abraço de cada um e sorria com aqueles olhos azuis que mais pareciam estrelas, o rosto já todo enrugadinho e as orelhas grandes de quem já perdeu as contas da idade. Entravamos à casa grande orgulhosos de estarmos em sua companhia, como cavaleiros vitoriosos nos filmes épicos.

Quando íamos à casa do vô Rafael, ele nos servia muita coca-cola e copa. Gostava de fartura! E a Dona Teresa nos dava colheres cheias de doce de leite. A casa dele tinha um abajur que fazia desenhos engraçados nas paredes e um enfeite de tatu, que mexia o rabinho junto com a cabeça. Lembro do cheiro da casa do meu avô até hoje. Esse cheiro não tinha nome, mas agora é cheiro de saudade. Nessas visitas à casa dele, ele já começava a nos contar piadas muito engraçadas, mesmo sendo sempre as mesmas, tipo aquela do João Bosta. Ríamos de doer o estômago. Nosso querido avô Rafael.

O tempo foi passando e os anjos quiseram avisar meu avô que ele era boa companhia para Deus, então deixaram que ele passasse mais um tempinho conosco, para que todos pudessem se despedir. Certo tempo me lembro que, ainda na casa da Dona Teresa, sentávamos em volta dele enquanto ele permanecia deitado numa cama esquisita na sala. Era uma cama de hospital. Ele falava mansinho e cheio de cuidado. Depois de um tempo, ele voltou à casa grande, ainda na cama. Certa tarde, ao assistir He-Man na parte da casa em que morávamos, minha tia Dia desceu as escadas e me pediu para abaixar o volume da TV, por causa do meu vô, que estava sendo levado pelos anjos. Corri desesperadamente pelas escadas e quando cheguei lá, vi todo mundo com os olhos jorrando água. Ele tinha ido embora, meu querido avô Rafael, naquele mesmo quarto verde em que comemorávamos os aniversários e as ceias de natal. Nosso querido avô Rafael.

A casa grande não existe mais. Foi vendida, demolida e, por ironia do destino, no mesmo lugar construíram uma escolinha. Um perfeito lugar para uma escolinha! Naquele pedaço de mundo, vivi os melhores momentos da minha vida.
Nos meus sonhos sempre vago pelos corredores da casa grande, pelas escadas, pelo azulzinho, pelo quartão, quartinho e até pelo quarto verde, onde abro o vitral, como em dia de festa, e vejo o sorriso contagiante do meu avô, que virou arcanjo e hoje está lá em cima, cuidando de todos nós com aqueles olhos de estrelas.

Anúncios

Um pensamento sobre “Meu avô Rafael

  1. Dani,

    Muito lindo, confesso que até me emocionei. E olha que é difícil, rs.
    Você escreve bem, sobretudo porque tem propriedade no que fala, faz de seus textos realmente uma filial de você. Filial esta que é quase matriz.

    Diante disso, você ainda tem dúvidas se vai ou não passar na ‘nossa’ tão sonhada Cásper? Que Anhembi que nada, serás “casperiana”, hehe. Se Deus quiser, eu também né?!

    Também sinto muita saudade de casa de bisavô (os avós eu ainda tenho, os ‘bisas’, alguns, foram levados como o vô Rafael).

    Mas a vida é assim, as pessoas vão mas deixam conosco um pedação de saudade e uma marca pra vida toda. História pra contar. Sábio Exupèry: “Tu te tornas responsável pelo que cativas”.

    Grande beijo,
    Amandinha 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s