Rede de intrigas (1976 – Sidney Lumet)

Como eu havia dito, o próximo post traria a resenha de um outro filme superinteressante. Trata-se do longa “Rede de Intrigas”, de Sidney Lumet (1976).

Sidney Lumet, 1976.

O longa conta a história de Howard Beale, âncora do telejornal transmitido em horário nobre na rede UBS. Beale costumava ser o jornalista mais renomado de seu tempo, com audiência de média de 28 pontos. Mas, em 1969, sua sorte começou a mudar. A audiência caiu para 22; no ano seguinte, sua esposa faleceu. Viúvo, sem filhos, uma audiência agora de 12 pontos. Howard passou a se atrasar, a se isolar e a beber em excesso. Emsetembro de 1975, sua demissão foi-lhe anunciada.

O personagem Howard Beale, vivido por Peter Finch, é a figura central da história, porém, não é o único astro do show. Com um elenco encabeçado por William Holden e Faye Dunaway, além de competentes coadjuvantes do naipe de Robert Duvall e Ned Beatty, Rede de Intrigas é um trabalho primoroso do diretor Sidney Lumet, uma incrível sátira ao mundo das grandes corporações e dos negócios por trás da tevê.

“A televisão não é a verdade. É um maldito parque de diversões. Nosso negócio é matar o tédio.” Howard Beale, personagem de Rede de Intrigas

No filme, Howard Beale tem uma atitude bastante irresponsável, algo que o desespero e o alcoolismo poderiam ser usados como justificativa: durante o noticiário, informa sua saída do programa dentro de poucos dias, ao vivo, e ainda declara que irá se suicidar. Pasme! A equipe não sabe o que fazer, os responsáveis pela emissora ficam furiosos e querem que Max Schumacher (William Holden), diretor do programa, impeça Beale de voltar à bancada do jornal nos próximos dias. No entanto, os índices de audiência são os mais altos dos últimos anos e isso chama a atenção de Diane Christiansen (Faye Dunaway), a diretora de conteúdo da UBS. Ela sugere o seguinte plano: manter Beale à frente das câmeras, mesmo que o sujeito demonstre ser psicologicamente despreparado para aparecer no ar; em outras palavras, um homem completamente maluco. A loucura de Howard Beale, se transforma na “sensação do ano”, com seus discursos exacerbados acerca da “sujeira do mundo em que vivemos. Logo ganha um programa no qual pode expelir à vontade todas as insanidades que lhe vêm à mente. Platéias viram seguidoras fanáticas, incitadas a aplaudir ou a protestar sobre os mais variados assuntos. Mas quando o homem, de repente, passa a ofender imigrantes árabes e revela os planos de um negócio bilionário sobre a compra de uma rede associada pelos sauditas, os bastidores começam a suar frio. Beale pede para que seus espectadores enviem telegramas à Casa Branca pedindo para que o negócio não seja sancionado. Assim, milhões de pessoas o fazem, e uma fortuna é retirada do país. Já consegue imaginar o resto, não? Na verdade, o modo como tiram Beale do ar é a grande sacada, arrematando em grande estilo a natureza satírica da fita.

Faye Dunaway, ganhou o Oscar de Melhor Atriz pela sua interpretação no longa

Rede de Intrigas é, sobretudo, uma corajosa e inteligente demonização das grandes corporações, ansiosas por lucros e altos faturamentos. A tevê foi o meio encontrado pelo premiado roteirista Paddy Chayefsky (de Marty e O Hospital), como algo de presságio. Se ligarmos um televisor hoje, em qualquer parte do mundo, teremos a sensação de que tudo o que Chayefsky idealizara se concretizou de alguma forma. Muitos assuntos tratados por ele ainda estão em evidência, porém num outro contexto (crises financeiras, guerras escandalosas, etc.). O que notamos é que a “espetacularização” de certos fatos, principalmente os trágicos, só vem aumentando desde aquela época, empregada dia após dia como isca. Sabe-se que muitos “peixes” fisgados tiram suas informações apenas por meio da televisão, ainda o maior veículo de comunicação do mundo (uma boa fatia do planeta permanece excluída da internet, sim, entretanto9 a cada 10 pessoas têm ao menos um televisor em seus lares) e suas opiniões são moldadas a partir do que é exibido e de como isso é feito. Em 1976, um dos pôsteres promocionais do filme anunciava: “A televisão jamais será a mesma”. Incrível, mas, de fato, ela nunca mais foi a mesma.

 
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