Queda livre

Quando criança, lembro-me quando olhava o jardim através da janela suada, enquanto a chuva caía, numa manhã de sábado. Meu pai ouvia um jazz suave, que falava sobre um amor bonito onde nomes eram cravados em árvores, enquanto minha mãe preparava o café e aquele cheiro amadeirado espalhava-se pela casa. Naquele momento, lembro-me de sentir como se eu pudesse ser o que eu quisesse, se desejasse com todo o meu coração e de olhos bem fechados…
…Ouvi o som do despertador anunciando novo dia. Hora de se levantar. Olhei para o relógio, desejando mais alguns minutos para permanecer na cama. Não queria sair dali.  Senti um aperto no peito. Anos se passaram desde aquele sábado.
Na esperança de voltar no tempo, apertei meus olhos, busquei alguma força genuína em meu coração. Queria ouvir aquele jazz romântico novamente, enquanto aguçava as narinas em busca do aroma do café atravessando as paredes. Abri um dos olhos, olhei ao redor. Nada mudou. Continuava ali, deitada em minha cama esperando a coragem para fazer aquele dia ganhar vida. 
Olhei para o relógio e senti um aperto no peito. Esmorecida, me pus em pé. 
Sentia-me estranhamente vazia. Tinha amigos, tinha um noivo (iria me casar em breve), tinha planos para filhos e formar uma família. Tudo parecia extremamente perfeito… Para um comercial de margarina. 
Não que eu nunca tivesse almejado tudo aquilo, mas naquele momento, não fazia sentido. Sentia falta de alguns sentimentos de bravura, da ludicidade, da admiração, da descoberta simultânea da vida. Além disso, havia um sentimento estranho de que algo me faltava. Muito eu havia visto e muito ainda desejava ver, mas ali o tempo parecia totalmente nulo. Uma sensação oca, inútil, vazia. Mas o que é que tinha mudado? O que havia acontecido?
Descobri, então, o que havia perdido e tudo se fez óbvio. Onde, afinal, eu estava?
Dentro de mim tudo era conformidade – não exercia a profissão que sonhara, mas tudo bem. Não conseguia expressar minhas idéias, mas tudo bem. Não conseguia achar criatividade, mas tudo bem. Estava conformada com a vida comum. Dentro de mim não existiam esperanças genuínas – estava fadada a essa tal vida comum.
 
Fechei seus olhos pela segunda vez,  desesperada, apertando-os apressadamente na esperança de ouvir novamente a música… Em vão. Me sentia estúpida por deixar o melhor de mim morrer.
Olhei pela aquela mesma janela, já sem tanta vida no jardim e, através da visão torpe encharcada de lágrimas, vi a montanha que nunca havia visitado, sempre postarguei ir até lá.
Como seria a visão de lá de cima?“, pensei. “Será que daria para enxergar um novo caminho, vendo tudo de tão alto?”. Talvez não fosse muito longe dali. Poderia ir caminhando e, nesse caminho, quem sabe não poderia encontrar, dentro dos meus pensamentos, o que havia perdido? 
“Não me dei por vencida, vou subir até lá e ver o que há”, pensei. Para tal, tive de desistir de todos os planos, abrir mão da vida comum e deixar tudo o que tinha vivido até ali. Doeu fazê-lo, mas o fiz.
Segui meu caminho, mesmo desconhecendo o quanto andaria. Tomei meu rumo por um caminho íngrime, cheio de pedras e muros.  Me vi longe de tudo, até não saber mais por onde estava andando. Não havia feito nada parecido em toda a minha vida! Vi pessoas diferentes, rostos estranhos, sentimentos bons e ruins – era paradoxo alucinante.
De repente, senti uma mão afagar meus cabelos. Foi mágico!  Me senti forte! Mas aquela estranha força, do desconhecido, partiu. Continuei. Onde, raios, eu estava?
Cheguei ao topo, ainda ofegante. A luz do sol era tão intensa que me cegava. Então, quando uma nuvem abrandou o reflexo do sol, pude perceber como ali visão era esplendorosa. Nunca havia visto nada parecido com aquilo. Foi quando então, no alto da montanha, me vi acima de mim mesma.
Fechei meus olhos ali desejei que meu coração apontasse o meu caminho. Surpreendentemente, ele me respondeu, com uma voz baixa, gentil e doce: “Pule!”. Respirei fundo, olhei para baixo e notei que não estava com medo. Abri meus braços, levantei minha cabeça e abri os olhos, deixando com que o vento forte passasse envolta de mim. Dei uma gargalhada inesperada, porque a felicidade tomava conta de mim. fechei os olhos e caí.
Durante a queda livre a liberdade era inefável. Ali, me encontrei. Precisava pular, sem saber onde cair, para que eu pudesse abrir minhas asas – longas, fortes, vívidas e majestosas – para perceber que o meu destino era aquele, havia me encontrado. Cair era necessário, para que as minhas asas me levassem até onde meu coração suplicava.
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