28/08/13 – 12h10

Dura a vida de marionete.
O que dizer,
o que ser,
o que fazer,
qual cheiro,
qual foco,
luzes,
alumbres,
e o que será quando crescer,
quem te diz, sou eu.

Dono da grana,
da fama,
da mesa de madeira maçiça.

Mas aqui,
no interior do meu interior,
não te faz dono do âmago
dessa tua boneca,
enfeitada,
de salto,
perfumada,
maquiada.
É como ser palhaço e
fazer sorrir,
e, inside,
querer chorar,
por não estar feliz.

Sistema, sistema, sistema,
dinheiro, dinheiro, dinheiro,
número, perímetro, tarifa,
tributo…
meu luto, meu enterro,
cavando lá no fundinho,
bem no fundinho,
tudo que aprendi a ser até hoje.

Foram duas lágrimas.
A primeira despencou rapidamente, como um suicida magrinho e sem talento.
A segunda ficou um tempo ninada pelas bordas até que caiu já quase seca nem passando da metade do rosto.
O sofrimento foi tão ralo que sequer alcançou o nariz.
Fiquei com preguiça de alguma saudade surpresa crescer escondida e me apunhalar em brechas de fraqueza e carinho, mas ela nunca apareceu e agora, se chegasse, seria só uma fantasia bordada de última hora pelo tédio.

Dois cafés

Tem que correr, correr
Tem que se adaptar
Tem tanta conta e não tem grana pra pagar
Tem tanta gente sem saber como é que vai

Priorizar,
Se comportar,
Ter que manter a vida mesmo sem ter um lugar…

Daqui pra frente o tempo vai poder dizer
Se é na cidade que você tem que viver
Para inventar família, inventar um lar

Ter ou não ter?
Ter ou não ter?
Ter ou não ter o tempo todo livre pra você?

O banco, o asfalto, a moto, a britadeira
Fumaça de carro invade a casa inteira
Algum jeito leve você vai ter que dar.

Sair pra algum canto, levar na brincadeira
Se enfiar no mato, na cama, na geladeira
Ter algum motivo para se convencer

Que o tempo vai levar
Que o tempo pode te trazer
Que as coisas vão mudar
Que as coisas podem se mexer

Vai ter que se virar para ficar bem mais normal
Vai ter que se virar para fazer o que já é
Bem melhor, menos mal, menos mal
Mais normal.

3 (três)

Tríades, trinômios, trindades
três, trinca, terno
tripés, tribo.
3.

Deve ser um número que me persegue ou que me ensina,
a saber o que significa ser o que se é
todos os dias.
Tríquetra.

Desses que caminham do lado e de peito aberto pro mundo,
seja pra mudar de apartamento,
ou ser levado pelo vento.
Sabe-se lá do tempo…
A gente não liga.

Desses que entendem
todos seus jeitos,
trejeitos,
defeitos e
despeitos.
Amores e
cores,
com flores
ou até mesmo nas
dores.

Desses que te fazem praticar a divisão,
que entendem o teu ‘mood’,
também acreditam no cosmos,
no acaso,
no fracasso,
no recomeço,
até do avesso,
e às vezes,
até mesmo sem precisar dizer
com palavras
porque
bastam olhares.

Enquanto com eles,
mal sei explicar o que é isso,
tudo isso.
A gente vive todos os dias,
sem saber
o que será
amanhã.

Abrimos o peito e encaramos a vida,
com ilícitos ou alcoolicos,
alternativos ou cafuçus,
no carnaval ou em Vegas,
na alegria e na tristeza,
na saúde e na doença,
todos os dias dessa vida,
até que a morte nos separe.

Eu amo vocês, companheiras.
Eu amo vocês, companheiros.

triquetra

dani, fefo e chico

26/02/13 – 20h56

Se perder só por perder.
Sentir só por sentir.
Achar, em meio a tudo,
nada.
Achar, em meio ao nada,
si só.
Só e se.
Talvez.

Cuspindo verbos
Tateando o desconhecido
Sorrindo sorriso gratuito
mas que espera
o sorriso de troco.

Esperando ser mais
do que foi
e menos do que achava que seria
sendo, in natura,
a mistura de tudo aquilo
que vi
e vivi.

Nem sei mais se sei fazer poesia.

Penultima vivência II

de dia era rodrigo
de noite cinematográfico
era só leão.
lido, longe
ficam mais os dedos
que as memórias.

e vozes
e dias atrozes
embalado para onde eu fosse
eu ia!,
aceitando mais a noite
que o dia.

de dia, eira
logo depois
lago sem beira,
braço longo
Casca boa para
encobrir
cerimônias.

assim um choro
aqui
já de noite
onde agora eu moro,
ou um coral,
rumor de risos e encantamentos pés descalços
e aranhas gordas,
lá fora a geada
anuncia a monção
aqui dentro
entre o que é rodrigo
e o que for leão
chegou

por sónias e rosas
um sopro de verão.

quero um sonho amarelo
– fosse trigo,
quero do feio
o que for belo,
e quero
– porque sim

a tua música sempre simples sempre só
sempre o mais possível
assim.

03/02/13 – 23:12

Estado vegetativo
Degenerativo
Digestivo
pensativo
ruminativo

Talvez encontre
um bom motivo
que explique
a vida
ou que dê
algum sentido

Ser tão
Ser toda
Ser tudo
mesmo sendo
sempre
quase

Um tanto
Um tento
Um trago
Eu tento

E vago
Mesmo engasgando
sempre testando
tentando
tinindo
sorrindo
chorando
e enlouquecendo.

O que explica
a vida
é a loucura
de todos
os dias.

03/02/2013 – 04:58

Depois de tudo
antes de dormir
algo recorda
mas pouco me lembra.

Não era o ‘mais eu’
nem o ‘menos você’
talvez a não existência
dos nós.
Desses nós.
Dos nós de nós.

Somos feito nós
e se a ponta achar a foz
os dois ficam sem voz
embaraçados feitos nós.

Desatei
E não me aperto
nem enjaulo.

Liberto.

(A little bit drunk)

Víbora

Teria sido bem melhor
se você tivesse nos contado
tudo.

A gente aqui
esperando você falar alguma coisa
E você aí,
bem na nossa frente,
mudo.

A gente nunca esperou
isso de você,
essa coisa esquisita
de ficar
em cima do
muro.

Até parece
premeditado
fake
feito de propósito
que você mudou de lado,
juro.

Até parece máscara
Ópera
Víbora

Mas é só você
Que tem o dom
de me amar
me seduzir
me desdobrar
e me cuspir
só pra me obter

Metade homem
Metade omisso
Uma parte morta
Outra parte lixo
O teu cheiro
A tua trama
A tua transa
Hoje eu não vou querer

Não sou moura torta
macabea
poliana
franciscana
nada pra você
E você é um
equívoco.

Champagne supernova in the sky

Me lembro que certa vez, quando estava sentindo esse mesmo buraco no peito, eu tinha pouco mais de 18 anos. Certa ocasião, curiosamente, eu ouvia Oasis nos fones de ouvido e caminhava pela Paulista, no começo da noite, a caminho de um encontro com alguns amigos. Estava tocando Champagne Supernova, uma das minhas preferidas. Notei que exatamente à mesma altura que eu caminhava, havia um rapaz, com seus vinte e poucos anos, tocando violão e cantando aos berros, sem camisa, no meio fio. Eu, que estava na na calçada, desacelerei o passo, baixei o volume do mp3 e, qual era a música que o cara berrava? Champagne Supernova. Eu tinha tomado um tiro de canhão no peito e, naquele momento, fui acertada por outro. Acho que ele também. Chorei, mas com um sorriso no rosto, porque foi exatamente naquela hora que entendi como tudo é efêmero. Vou me lembrar dessa cena até o fim da minha vida.

“But you and I, we live and die
The world’s still spinning around
We don’t know why”